Revisito, de vez em quando, textos antigos — não textos literários, mas relatos, desabafos, constatações cotidianas que anoto de forma irregular e deixo "desparceiradas" por aí —, muitos deles retirados das redes sociais. Hoje achei um texto publicado em setembro de 2014, portanto há quase que exatamente seis anos, e me surpreendi com a lucidez do que eu disse.
Vejo muitas vezes as pessoas absortas em tentar entender os ensinamentos divinos, buscando extrair o que consideram ser diretrizes exatas para suas vidas. Gostaria de lembrar a todos que o Camarada Maior nos deu algo preciosíssimo: o livre arbítrio. Acho que temos de, medindo desejo e racionalidade, tomar nossas decisões, se possível com segurança, assumindo por elas a responsabilidade. Ser justo com o Camarada Maior é assumir que somos falíveis, e, se erramos, foi por iniciativa e culpa nossa. Não fico pensando a todo tempo se minhas atitudes correspondem a um regulamento rígido e predefinido que é interpretativo, e, ao meu ver, provavelmente inexistente; não obstante, acho que temos de observar algumas premissas gerais básicas na vida, como a honestidade e a gentileza. Sei que cometo erros, provavelmente quase todos os dias, mas tenho a convicção pessoal de que não prejudicam o nosso mundo, e que, de qualquer forma, tudo está devidamente gravado para um acerto franco de contas quando eu passar deste para um outro plano, no qual seremos tratados com pura justiça e cuja possibilidade de recuperação através do aprendizado e do arrependimento estará disponível sempre. O Camarada Maior sabe o que faz.
É impressionante como eu, mesmo impregnado de uma ideologia de esquerda tão presente na época a ponto de chamar Deus de Camarada Maior e nunca tendo absorvido doutrina religiosa nenhuma — eu já era próximo do espiritismo, mas só começaria a ler a Doutrina dois anos depois, e minhas outras experiências espiritualistas ainda nem sonhavam em vir —, consegui exprimir um ponto de vista religioso tão leve quanto lúcido.
Mas talvez tenha sido justamente por causa disso: sem ter assumido nenhuma doutrina para mim, e sem conhecer nenhuma a fundo — e ainda tomado pelo fervor revolucionário da juventude que me levava a afrontar velhas regras —, consegui exprimir uma visão que não versava sobre medo, condenação nem códigos estritos, mas sim a beleza de se ter livre-arbítrio e agir com a tranquilidade de que somos responsáveis pelos nossos atos, e, balizando-os em algumas premissas básicas, pouco podemos nos debruçar sobre especificidades.
Olho para mim mesmo naquela época e tiro meu chapéu. Como é que eu, no meio de um trabalho de conclusão de curso, num momento muito amargo politicamente, depois de questões que abordarei em outro texto, e do alto de meros 22 anos, tive a epifania de escrever um texto tão sincero, lúcido e verdadeiro sobre Deus? Acho que é assim que Deus age, muitas vezes: através de quem menos se espera, ou quando e onde menos se espera.
A possibilidade infinita de arrependimento e aprendizado é algo em que sempre acreditei, mas que, quando li desta vez, me trouxe uma paz maravilhosa, como poucas vezes antes eu tive ao ler ou ouvir afirmativas do tipo. Talvez porque quem está me dizendo isso sou eu mesmo, seis anos atrás, magrinho, com a mente a mil, mal imaginando as loucuras que aconteceriam na vida a partir do ano seguinte.
Só posso esperar de você, leitor, que, ao ler esse texto que escrevi naquele tempo — e, por favor, releia-o antes de sair da página — sinta tranquilidade, paz absoluta, e tenha a certeza de que Deus não te condena pelos detalhes do que você faz, nem, nunca, vai te negar a possibilidade de reparar os erros que você cometeu.
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